CIA.LIVRE
 

A ARENA GIRA

Em 2004, a Cia. Livre ocupou o Teatro de Arena Eugênio Kusnet. No primeiro semestre abrimos as portas para uma ocupação livre: Em Arena Mostra Novos Dramaturgos aproveitamos o gosto pelas leituras encenadas e, junto com uma infinidade de amigos, colocamos em cena 30 peças de 17 dramaturgos da nova geração, a maioria inéditas. A continuidade natural desta ocupação livre, foi a estréia de uma pletora de pequenos grandes espetáculos no projeto Arena Porto Aberto: O Nome da Peça Depende da Lua (2004), solo de Gustavo Machado com texto e direção de Vadim Nikitin; Pagarás Com Tua Alma e De 4, ambas com texto e direção de Gustavo Machado; Entreatos, com um par de textos de Gero Camilo; A Cicatriz é a Flor e Dentro, ambas de Newton Moreno; O Sistema do Mundo de Marcelo Romagnoli e Chico Cobra e Lazarino, de Racine Santos, com direção de Edgar Castro. Essas montagens eram exemplos de como poderia funcionar uma companhia livre, pois, bem a seu modo, cada uma delas constituiu uma jira livre de criadores que souberam se seduzir e se produzir apostando no despojamento certeiro das encenações. Não por acaso, a maior parte desse repertório aninhou-se malandro no formato arena, historicamente mais econômico.

Nesse meio tempo conseguimos, pela primeira vez em nossa história, um patrocínio: não por acaso fomos contemplados no edital de preservação de patrimônio imaterial da PETROBRÁS para o estudo público Arena Conta Arena 50 Anos, projeto com o objetivo de resgatar através de Depoimentos, Palestras e Leituras Dramáticas Encenadas a história e as memórias do Teatro de Arena, nascedouro do teatro de grupo paulista. Este projeto, com direção geral de Isabel Teixeira, virou Site, CD-Rom e exposição e foi ganhador do Prêmio Shell Especial. Não deixa de ser engraçado o fato de que, depois de nos embebedarmos de Teatro Oficina nos anos 1990, tenhamos ido dar no Teatro de Arena, sem distinguir lucidez de porre, do outro lado da Consolação.

O estudo vivo do Teatro de Arena, ligando história ao teatro, fomentou o processo de criação de Arena Conta Danton, livre recriação de A Morte de Danton de Georg Büchner, com dramaturgia de Fernando Bonassi em processo colaborativo com a Cia. Livre. O espetáculo, dirigido por Cibele Forjaz, buscou um encontro na encruzilhada dos tempos, misturando Revolução Francesa, Büchner e Sistema Coringa, em pleno raiar do século XXI. Arena Conta Danton inaugura nossas experiências com o teatro-jogo, a encenação propõe que uma roleta no centro da Arena defina, ao acaso, a escalação de dois times (Brancos/Girondinos e Pretos/Jacobinos) gerando 512 possibilidades de combinação diferentes e espaço para várias cenas improvisadas, nas quais os atores refletiam, junto com os espectadores, sobre a relação entre contexto histórico e o nosso presente.

A Cia. Livre desocupou o Teatro de Arena no início de 2005 e durante todo o ano seguinte levou consigo, pulsando forte, a experiência vivida por todos nós ali naquele palco-centro do Centro da cidade. Do Centro, nos desdobramos para outras praias. O Arena Conta Arena ocupou o Instituto Tomie Ohtake numa exposição que permaneceu três meses em cartaz. No Grande Hall e nas três salas ocupadas, o Arena se contava em outro contexto, levando ao público uma experiência teatral fora das salas de teatro. De 4, começou a mambembar pelos teatros da cidade de São Paulo, sob a batuta de Gustavo Machado & sua trupe de atores autores. A montagem de Subterrâneo (ou 2497 Rublos & Meio), texto de Vadim Nikitin, livremente inspirado no conto O Senhor Prokhártchin de Fiodor Dostoievski, estréia em 2005 no porão do Centro Cultural Capobianco. Arena Conta Danton viajou sem parar até girar para além das nossas fronteiras em Berlim, na Copa da Cultura de 2006. Girávamos por aí, embevecidos de história e de jogo. Girávamos por aí, agora dispersos pelas estradas, como narradores, com uma vontade louca de nos recontarmos a nós mesmos.

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